Crie seus próprios desafios

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“Culturalmente, nossa capacidade de realização e superação são sempre questionadas ou advertidas, seja pelas regras intrínsecas da sociedade, ou pelas respostas que recebemos ao longo da vida, seja da família, educadores, da mídia, etc.

Desde criança, é muito comum ouvirmos: você vai cair, cuidado! Você não consegue! Muito alto para você… muito difícil para você! E assim aprendemos a conviver com as pequenas derrotas e nos acostumamos a elas. Vamos nos adaptando.

Lembro que sempre tive muita dificuldade para estudar. No início da alfabetização, percebi que eu era diferente dos demais alunos da classe, que escrevia com a mão “errada” enquanto todos escreviam com a mão direita. Escola de freira, super conservadora, ensino rígido…precisei, também, aprender a usar a mão “correta” para escrever, mesmo sendo canhoto. Até hoje não sei as consequências desta troca, mas alguns anos de fonoaudiologia foram necessários para minimizar as distorções.

Família grande e muitos irmãos contribuiu para que o ambiente em casa também não fosse muito propício para a concentração nos estudos. Lembro que na época de cursinho na rua Sergipe em São Paulo, muitas vezes ia para o cemitério da Consolação para aproveitar o silêncio e poder me concentrar nos estudos.

O esforço para acompanhar a turma era imenso, e depois de muita “recuperação”, provas substitutas e nítida dificuldade de aprendizagem, descobri que tinha Dislexia.

De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), a dislexia é definida como sendo um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento da palavra, na leitura, resultante de um déficit na decodificação e em soletração.

No meu entendimento, é uma mudança de modelo mental onde é muito fácil trocar letras ou pular linhas durante uma leitura. A interpretação de texto precisa ser muito mais atenta e a melhor comunicação se faz através da linguagem gráfica.

Durante a leitura, eu troco algumas palavras, ou muitas vezes eu pulo a linha inteira sem perceber. Quando chego no final do parágrafo e percebo que não entendi nada, tenho que reler e descubro que havia pulado algo no texto. Muito comum, até hoje. Isso faz com que qualquer estudo seja mais difícil ou na melhor das hipóteses, mais lento.

Dislexia não é “déficit de atenção”. A Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), define que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Dificuldades de organização e planejamento (disfunção executiva) são também muito frequentes. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção).

Nunca fui um bom aluno na escola, esforçado sim, mas nunca tive boas notas. Tenho uma sobrinha que tira as melhores notas da primeira turma do Colégio Bandeirantes em São Paulo, nunca entendi como ela faz isso.

Lembro bem do meu primeiro ano do colegial (atual ensino médio). As notas de Português, História, Filosofia e Inglês eram sempre pintadas de vermelho e mesmo estudando o máximo que eu pude; mesmo com recuperação, aulas particulares e monitorias; eu não consegui acompanhar a turma e repeti o ano escolar. Apesar dessas dificuldades eu sempre gostei de enfrentar os desafios!

Aos quinze anos já tinha em mente o que queria para mim. Queria ser um grande executivo, um CEO, presidente de uma empresa respeitada.
Mas, quais as competências e conhecimentos eu precisaria adquirir para conquistar este sonho? Pesquisei o perfil dos principais executivos da época e identifiquei o que todos tinham em comum. Meu modelo era Jack Welch da GE. Todos eram engenheiros, moraram fora do País algum período, falavam mais de uma língua e estudaram em escolas de primeira linha, muitos em Harvard. Foi quando descobri que engenharia era um dos cursos mais difíceis, e mesmo assim eu criei meu próprio desafio: cursar a faculdade de Engenharia! Com muito esforço concluí o curso… não em cinco ou seis, mas em oito anos.
Meu próximo desafio era dominar o idioma inglês, afinal isso também fazia parte do perfil dos presidentes de grandes empresas. Não havia outra opção, tinha que enfrentar isso! Escolhi o curso mais conceituado que tinha na época em São Paulo e estudei durante dois anos, pelo menos quatro horas por dia, para aprender definitivamente a língua inglesa. Fiquei durante dois anos fazendo aula todos os dias, de segunda a sexta, no período da noite ocupando o mesmo horário que tinha na faculdade, para continuar estudando e definitivamente aprender a língua inglesa. Eu não estava satisfeito. Eu queria mais. Eu precisava fazer um curso de MBA no exterior. Ter uma vivência no exterior. Durante quatro anos juntei dinheiro para fazer este curso. Poupança.

Em 1999, a estratégia estava montada, quando já tinha cerca de R$ 40 mil (meu carro, poupança e meu FGTS), o suficiente para fazer o primeiro ano do MBA, com o desafio de me tornar o primeiro aluno da classe e ganhar bolsa para seguir ao segundo ano; o dólar disparou de $1,20 para $2,30 e perdi meu poder de compra do curso nos EUA. Em poucos meses o valor de um ano se transformou em alguns meses que impediu de meu plano seguir em frente.

Mudei de plano, decidi então fazer uma pós-graduação na Universidade da Califórnia. Quando eu voltei, eu me inscrevi na faculdade mais temida do Brasil e fiz o MBA no Insper. Entre 2000 e 2002, tive a minha experiência no exterior, fiz uma pós-graduação, o MBA em faculdade de 1ª linha e de carona, …aperfeiçoei meu inglês. Ainda não era suficiente para mim, eu queria estudar mais, eu queria aprender mais. Como nessa altura do campeonato tinha o conhecimento de inglês, fui fazer extensão do MBA em Illinois e um programa de gestão em RH em Ohio nos Estados Unidos. 

Harvard Business School. Essa universidade sempre me chamou atenção porque todos falavam muito bem dela, ela tem um glamour, ela tem respeito! Todo mundo que estuda lá é diferenciado, e eu queria conhecer, conferir se realmente é isso tudo que diziam.

Busquei uma oportunidade de fazer um curso. Caro, tudo muito caro! Eu não tinha dinheiro, mas queria muito conhecer o que que existia de excepcional na faculdade. Então me inscrevi e mandei uma carta muito bem escrita pedindo uma bolsa de estudo para fazer o curso… dizendo nessa carta que eu era um aluno brasileiro e que o curso seria diferenciado se eu tivesse presente, que a turma se beneficiaria pela diversidade cultural que eu levaria de outro País, que eu era um aluno aplicado e que esse curso faria a diferença para minha vida profissional. Tentei, arrisquei e consegui. Ganhei a bolsa e realizei meu sonho.

Engenharia, Pós, Mestrado, Harvard. Em 2011 ainda fiz o AMP da ESADE na Espanha. Apesar De todos esses movimentos, me diziam que nada disso era possível. Não era possível, não ia conseguir…sempre tive muitas barreiras naturais e sociais. Enfrentei todos! Como? Criando meus próprios desafios, um a um!

Apesar da dislexia, apesar da falta de dinheiro, apesar da falta do inglês, falta de ambiente em casa, necessidade de trabalhar para pagar todas as contas, apesar de todas as barreiras…eu consegui, conquistei e cheguei até onde cheguei. 

Agora proponho a você: crie seus desafios você mesmo! Coloque suas metas e persiga-as! Procure o melhor, se você busca uma faculdade, procure a melhor. Se você busca um curso de inglês, procure o melhor. Se você busca uma pós-graduação e mestrado, procure o melhor! Vá em busca do melhor, enfrente as barreiras, ouse, você vai conseguir!

Você merece realizar seu sonho e vai chegar lá!"

por Rui Francisco de Paula